Quem somos: Rede Brasil do Pacto Global

Sabia que dos 200 maiores PIBs do mundo, 153 são de empresas?*

Quando o ex-secretário das Nações Unidas, Kofi Annan, sentava-se ao lado de dirigentes cujas empresas eram denunciadas por exploração laboral e dano ecológico, o olhar do mundo foi de desconfiança. A postura das Nações Unidas foi questionada pela imprensa. “Os anjos não precisam da nossa ajuda”, respondeu objetivamente Kofi Annan a um jornalista, em coletiva de imprensa. Na visão do ex-secretário, disseminar as boas práticas empresariais não era uma retórica para convertidos, mas sim um processo em passos curtos rumo a uma mudança profunda da gestão mundial de negócios.

A trajetória brasileira neste árduo e trabalhoso caminho de mobilizar e conscientizar empresas passou a ser delineado em 2003, com a criação do Comitê Brasileiro do Pacto Global. De lá para cá, foram 15 anos de mudanças, avanços e conquistas da Rede que se tornou a terceira maior do mundo em empresas signatárias – atrás somente da Espanha e da França.

 

Rede Brasil do Pacto Global – O começo

Logo após o anúncio do então secretário geral Kofi Annan sobre o lançamento da iniciativa do Pacto Global, as Nações Unidas não mediram esforços para convocar instituições no mundo para iniciar os trabalhos das redes locais. A ideia de formar uma associação de empresas ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio chamou a atenção do Instituto Ethos, primeiro ponto focal do Pacto Global no Brasil.  

A largada da instituição foi evocar uma reunião de empresários interessados em participar da iniciativa. O “Diálogos Empresarial sobre os Princípios do Pacto Global” reuniu 300 companhias e organizações da sociedade civil. “Foi curioso que, nesta primeira reunião, 250 empresas aderiram depois ao Pacto Global. Então, logo no começo, o Brasil teve posição de destaque na iniciativa”, comentou sobre o fato o fundador do instituto Oded Grajew, na época um dos responsáveis pela mobilização.

Com a criação do Comitê Brasileiro do Pacto Global (CBPG), em 2003, os primeiros trabalhos da rede brasileira focavam em encontros sobre temas específicos – que originaram os Grupos Temáticos – e a divulgação nacional do Pacto. Ao mesmo tempo, exigia-se a efetividade dos compromissos formalizados pelas empresas na hora que assinaram as adesões. Na falta ainda de metas com foco na gestão empresarial, o Ethos tomou de início seus próprios indicadores. “Queríamos informações de quantas mulheres, quantos negros ocupavam cargos de chefia, quais eram as condições de trabalho, medidas de integridade, entre outros. A Rede Brasil estava bem avançada nessa questão, que ainda não era muito clara no UN Global Compact”, disse Grajew.

A rede brasileira do Pacto Global, ainda com poucos recursos e uma equipe enxuta, seguiu os anos capacitando empresas. Vitor Serravalli, presidente da iniciativa entre 2008 e 2011, era quem circulava pelo país realizando os treinamentos. A experiência de outras redes maiores, como a da Espanha, suscitou discussões do grupo sobre institucionalizar mais o Pacto Global no Brasil, inserindo-o nas Nações Unidas. E esse foi o caminho que levou a iniciativa a se reaproximar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), relação outrora distante. “A ideia de colocar o Pacto no Pnud fazia sentido, pois a iniciativa era da ONU e isso melhorava a sua identidade. Graças a Jorge Chediek [na época representante residente do Pnud no Brasil], houve suporte para essa estruturação”, relatou Serravalli. A mudança na gestão visava, também, facilitar a prospecção de recursos e criar uma governança para propor mandatos.

A Rede Brasil conta hoje com mais de 770  signatários, entre grandes empresas nacionais, pequenas e médias empresas, federações de indústrias e organizações da sociedade civil. No currículo de 15 anos de existência, a Rede Brasil tem projetos próprios nos temas de Água e Direitos Humanos, treinamentos sob as diretrizes do SDG Compass, publicações lançadas e uma equipe de profissionais no escritório da ONU em São Paulo.

Rede Brasil no Board do Pacto Global, liderado por
António Guterres

Projetos, treinamentos e ideias: a Rede Brasil hoje

 

Atualmente, a Rede Brasil ganhou protagonismo dentro da organização. Lidera as redes locais na América Latina e preside o conselho global das quase 80 redes locais espalhadas por todo o mundo, o que lhe garante um assento no Board do UN Global Compact, a instância máxima da iniciativa. Também tem mais liberdade para trabalhar  seus diversos eixos – todos focados no principal objetivo de engajar as empresas no alcance dos ODS. Um desses projetos existe desde 2016, o Empoderando Refugiadas, cujo objetivo é qualificar profissionalmente mulheres refugiadas para que consigam um trabalho no Brasil, e conta com as parcerias da ONU Mulheres, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e de algumas empresas. O programa qualifica as participantes e promove relacionamentos, colocando-as em contato com quem pode oferecer oportunidades no mercado.  

Empresa parceira do projeto, a Sodexo já contratou mulheres refugiadas por meio do projeto. Juntas, a Rede Brasil e a empresa aprenderam a trabalhar com as refugiadas. “Entendemos que são mulheres que passam por uma carga emocional muito alta. São comprometidas, engajadas e com capacidade de oferecer muito para as empresas, pois propõem novas formas de realizar as atividades”, comentou a coordenadora de Diversidade e Inclusão da Sodexo, Lilian Rauld.

Outra iniciativa é o movimento Menos Perda Mais Água, liderado pelas empresas Sanasa Campinas e Braskem. A ideia é engajar o setor público e privado no combate ao desperdício de água. Para Adriana Lelis, assessora para gestão da sustentabilidade da Sanasa, a Rede Brasil abriu um novo ambiente de relacionamentos. “A empresa já participava com relevância das discussões do setor de saneamento. Contudo, a partir do Pacto, a Sanasa passou a se engajar em setores diversificados, o que tem colaborado para a troca de experiência, aprendizados e elevado nosso posicionamento sobre diversos temas, como Direitos Humanos, Água e Saneamento Básico”, comentou Lelis.

Recentemente, o movimento lançou uma publicação Perdas de Água 2018 (SNIS 2016) – Desafios para a Disponibilidade Hídrica e Avanço da Eficiência do Saneamento Básico, alertando para o nível de desperdício de água nos municípios brasileiros a partir de um estudo encomendado do Instituto Trata Brasil.

Na área de Agricultura e Alimentação, uma cartilha produzida pela Rede Brasil chamou a atenção da sede de Nova York. O documento Os Princípios Empresarias para Alimentos e Agricultura como orientadores para os objetivos de desenvolvimento sustentável foi traduzido para inglês, a pedido da sede, e figura como exemplo para as outras Redes Locais. O próximo passo do GT de Alimentos e Agricultura é iniciar um treinamento de formação técnica das empresas para a aplicação interna do conteúdo oferecido pela cartilha. A previsão é que a capacitação piloto já ocorra este ano. “Ao divulgar os cases de sucesso na área, mostramos que os ODS não são inatingíveis ou distantes da realidade das empresas”, comentou Juliana Lopes, coordenadora do GT e diretora de Sustentabilidade, Comunicação e Compliance da Amaggi.

A Rede Brasil do Pacto Global também passou a alinhar estratégias de implementação dos ODS, a partir de um ciclo de cinco fases: Entendendo os ODS, Internalizando os ODS, Liderando os ODS, Reportando os ODS e Disseminando os ODS. As empresas, signatárias ou não, podem ter acesso a benchmarking e ferramentas. O SDG Compass é um destes instrumentos. A equipe da Rede Brasil realiza um treinamento personalizado, que orienta a empresa contratante a criar um planejamento para adequar seu modelo de negócios ao alcance dos ODS.

Primeira organização a realizar a capacitação in-company, a Special Dog priorizou os ODS que mais impactam ou são impactados pelos negócios deles. “Dali em diante, passamos a identificar todos os projetos com seu (s) respectivo(s) ODS. Entendemos que os ODS traduzem essa agenda e têm o poder de engajar (por sua comunicação alegre e suas metas claras), impulsionando os resultados esperados”, comentou João Paulo Figueiras, responsável pelo setor de sustentabilidade da empresa.

Rede Brasil do Pacto Global para o Futuro

 

O Pacto Global oferecerá globalmente uma ampla variedade de serviços a empresas com o objetivo de engajá-las cada vez mais na sustentabilidade corporativa. A reestruturação da iniciativa, pensada desde 2017, visa disponibilizar novas ferramentas para mobilização e angariar recursos para mais práticas, plataformas de ação e eventos. Indo neste sentido, a Rede Brasil também se adapta para os novos desafios e parcerias.

A contribuição anual passará a ser obrigatória para as empresas com receitas anuais superiores a US$ 50 milhões que aderem à Rede Brasil, sendo preservado o não pagamento por pequenos e médios empreendimentos. Até o dia 31  de dezembro de 2018, dois novos níveis de engajamento estão disponíveis para que as iniciativas privadas escolham aquele que melhor atende às suas necessidades: Signatário e Participante, sendo que a primeira categoria pode ser envolver em mais programas. As novas propostas de valor não apenas permitirão que empresas acessem as mais recentes ferramentas e Plataformas de Ação ONU e busquem melhores índices de sustentabilidade de negócios.

No Portfólio de Plataforma de Ações do Pacto Global, especialistas e agências das Nações Unidas estarão à disposição para capacitar empresas rumo à adoção de um modelo de negócios mais comprometido com os valores universais e de acordo com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Para o secretário executivo da Rede Brasil do Pacto Global, Carlo Pereira, o objetivo da nova proposta de valor é agregar o maior valor possível às empresas e organizações que fazem parte da rede. “A proposta foi construída em conjunto com as empresas e com Nova York. É essencial a contínua interação de todos os membros e o trabalho em rede para que possamos melhorar, cada vez mais, essa mudança”, comentou.

 

* Saiba mais em pesquisa da Global Justice Now.