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Imagem: Fellipe Abreu

Trabalho para refugiados é tema de encontro no Palácio dos Bandeirantes

Publicado em 3 de dezembro de 2015

Por Rodrigo Borges Delfim*

De um lado, imigrantes e refugiados que chegam e começam do zero em um novo país, independente da formação profissional; do outro, empresas que muitas vezes não sabem como aproveitar a experiência diferenciada que essas pessoas trazem. E como aproximar esses dois campos que parecem tão opostos?

Foi com o intuito de sensibilizar representantes empresariais para a contratação de imigrantes e refugiados que ocorreu na quarta-feira, 2 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, o Encontro Empresarial – O papel do setor privado na integração de imigrantes e refugiados. Promovido pela Assessoria Especial para Assuntos Internacionais (AEAI) do Estado de São Paulo, o evento teve apoio do ACNUR (agência da ONU para refugiados) e da Rede Brasileira do Pacto Global da ONU.

Voltado para empresários, que eram maioria entre as cerca de cem pessoas presentes, o evento mesclou a atuação de projetos e entidades – como o PARR (Programa de Apoio para Recolocação dos Refugiados), Missão Paz e CIC (Centro de Integração da Cidadania) do Imigrante – com cases de empresas que já contam com imigrantes e refugiados em seu quadro de funcionários.

Presentes ao encontro, imigrantes e refugiados puderam tanto partilhar um pouco da trajetória laboral no Brasil como agradecer pela recepção no Brasil e desabafar sobre preconceitos sofridos por aqui. Hoje professora de espanhol no Abraço Cultural, a antropóloga cubana Maria Ileana Faguaga Iglesias lembrou preconceitos vividos no Brasil por ser negra, mulher e refugiada. E agradece à instituição que a tem acolhido. “É importante não só pelo trabalho, mas também pela oportunidade de estar com pessoas que me dignificam. O Abraço nasce com essa ideia de troca, não é paternalista. E só com essa troca você cresce”.

A questão da troca também foi citada pelo francês Fabrice Le Nude, dono da Patisserie Douce France, que conta com três haitianos entre os 35 funcionários da confeitaria. “Eles não são menos, nem mais. Eu recuso a vitimização da migração e do refugiado. Quero ensinar uma profissão – a de confeiteiro – mas quero ver o funcionário correndo atrás. Me comprometi a ensinar confeitaria e é algo que eles vão carregar pela vida toda”, disse.

Já o nigeriano Abiodun Oleswole Michaell, que vive há três anos no Brasil e há um ano é funcionário do Carrefour, conta que também já sofreu preconceito no Brasil, mas atualmente agradece pelos avanços que já viveu. “Vejo futuro na empresa onde trabalho e no Brasil, com perspectivas de crescimento”, afirmou. Ele quer ainda dar continuidade aos estudos em Ciências Contábeis, área na qual estava se formando na Nigéria.

O evento foi ainda uma grande oportunidade para a síria Muna Darweesh. Professora de literatura inglesa  e refugiada no Brasil desde o começo de 2014, ela encontrou na gastronomia uma forma de recomeçar a vida por aqui. Muna foi a responsável pelo café da manhã servido no encontro, a convite do Pacto Global.

“Para mim é como um sonho. Ontem estava falando sobre isso com minha família, ao preparar o que traria para cá, sobre o que tem acontecido conosco aqui. Me sinto abençoada por estar aqui e apresentar a mim mesmo e o meu trabalho para estas pessoas”, lembra ela, que tem um serviço de culinária síria por encomenda – o Muna Sabores & Memórias Árabes – e ministra workshops gastronômicos com projetos e instituições como o Migraflix e o Adus.

Reflexões além dos estereótipos

Também não faltaram reflexões sobre como populações minoritárias são tratadas sob a ótica de uma série de preconceitos e a necessidade de superá-los. Alexandra Loras, consulesa da França, partiu da própria trajetória de vida para provocar os presentes a se questionarem – nascida em Paris, negra, de mãe francesa e pai da Gâmbia, país do oeste da África, ela contou que sofreu uma série de preconceitos quando entrou na Science Po, universidade de elite na França.

“Precisamos destruir conceitos para poder construir novos. É importante trazer essa reflexão para nos darmos conta de como podemos mudar o mundo”, afirmou a consulesa, mostrando fotos que retratam o lado moderno de grandes cidades africanas e personalidades históricas e culturais que são afrodescendentes, de Nelson Mandela a Machado de Assis e Aleksandr Pushkin – sim, o famoso poeta russo tem ascendência eritreia por parte de pai.

Outra reflexão veio de Reinaldo Bulgarelli, da Txai Consultoria e Educação, que lembrou que ninguém deve ser reduzido a um marcador identitário (origem, crença, orientação sexual etc.). “O mundo fica mais rico quando valorizamos a diversidade. Mas essa riqueza toda não é devidamente aproveitada. Valorizar a diversidade é o que precisa ser feito”, comentou.

Além dos debates, o evento contou ainda com a exposição Somos Todos Imigrantes, do fotógrafo Chico Max e que já foi exposta no Museu da Imagem e do Som (MIS) e durante o Seminário Vozes e Olhares Cruzados deste ano. Em janeiro, a mostra deve seguir para outros locais de São Paulo.

Dados sobre refúgio

Segundo dados do ACNUR consolidados em setembro deste ano, o estado de São Paulo recebe 40% das solicitações de refúgio no Brasil. Em seguida, aparecem Acre (16%), Rio Grande do Sul (11%) e Paraná (7,5%).

Os nigerianos correspondem à maioria dos solicitantes, seguidos de sírios, congoleses (República Democrática do Congo), libaneses e ganeses. Já em relação aos refugiados que tiveram a solicitação deferida os sírios lideram, seguindo a tendência mundial.

Ao todo, são cerca de 8,5 mil refugiados reconhecidos no Brasil e cerca de 12 mil estão à espera da resposta sobre o pedido de asilo no país. Apesar do grande crescimento nos últimos anos, o Brasil ainda recebe um total mínimo de refugiados.

De acordo com o Global Trends 2014, relatório anual mais recente do ACNUR sobre migrações e refúgio, o mundo tem hoje 59,5 milhões de pessoas deslocadas, sendo que 13,9 milhões delas tiveram de ir para outros países – o que as qualifica como refugiadas. Delas, a maioria é da Síria (3,88 milhões), Afeganistão (2,59 milhões) e Somália (1,11 milhão). Já entre os países que mais recebem refugiados, a Turquia lidera (1,59 milhão), seguida por Paquistão (1,51 milhão), Líbano (1,15 milhão), Irã (982 mil), Etiópia (659,5 mil) e Jordânia (654,1 mil).

*Reportagem extraída do site MigraMundo


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